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a vida em azul cueca

13
Mai19

19 - A mãe perfeita(mente desesperada)


Mac

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o meu adolescente querido vai ao meo sudoeste . 9 dias . diz que cinco são para acampar e mais não sei quê e os outros quatro para concertos . ou ao contrário, não percebi, porque perdi a noção espaçotemporal por uns minutos e perdi-me na conversa . espero muito sinceramente que nos dias dos concertos também acampem . não interessa, tudo somado são nove dias de esbórnia longe da mãe querida . esta aqui .  a mãe dele, esta que vos escreve, está em pré desmaio . não sei se não será mais uma síncope, mas está bem . diz que é em agosto . para me aliviar do pré desmaio, quase síncope, fiz uma lista daquilo que me parece que ele vai precisar . mostrei-lhe a lista . disse-me assim, literalmente, sem tirar nem pôr "eu não sou um totó" . a mãe querida dele começou a tomar colagénio . depois conto-vos tudo . se fiquei mais nova, mais velha ou desmaiada .

 

 

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02
Mai19

50 - Quem tem um adolescente, tem tudo


Mac

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O problema com os adolescentes de 18 anos é que já levam com quatro anos de adolescência. São quatro anos de meias metidas na cama, entre as almofadas do sofá e por aí, são quatro anos de roupa suja espalhada, de pacotes vazios esquecidos algures pela casa, ténis à porta e recusas em tomar banho. São quatro anos de falta de banho ou excesso, depende dos humores e das fases da vida e existenciais em que se encontram, quatro anos de reviradelas de olhos, sopradelas para a franja e grunhidos. Quatro anos de teimosias de fazer chorar um santo, de atirar uma mãe para uma ala de psiquiatria com surtos diversos, de nervos de aço, abraços de ferro e mimo também. É muito treino, muitas certezas e uma vontade férrea de infringir todas as normas e hábitos da família e sociedade em geral.

 

O meu adolescente resolveu usar risca a meio no cabelo, ora para mim a risca a meio nos homens é o equivalente a uma mulher que não se depila. Não se usa, não se faz, não gosto. Andamos nisto há 15 dias. Há 15 dias que faço campanha para o regresso da risca ao lado. Ontem tivemos o aniversário do pai desta casa e eu tirei fotografias. Muitas fotografias. Imensos grandes planos da risca a meio. A risca a meio em grupo, a risca a meio isolada, a risca a meio só com a cabeça, a risca a meio com a cabeça e o corpo, a risca a meio de lado, de frente e de costas.

 

Hoje o meu adolescente fez risca ao lado. A mãe dele não lhe disse nada. Nada. Silêncio total em relação ao assunto capilar. Calada como só uma mãe sabe ficar, quando a causa é superior. 

 

O problema dos adolescentes com 18 anos é que as mães dos adolescentes já levam com quatro anos de adolescente.

 

 

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24
Abr19

49 - Quem tem um adolescente, tem tudo


Mac

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O meu adolescente já só tem para aí 10,75 % de adolescendite, começo a acreditar nisto, apesar de ainda de vez em quando ter uns acessos agudos, mas a verdade é que já consegue estar uma boa parte da sua existência, vá, do relacionamento connosco, sem bufar, soprar para a franja e/ou espetar os olhos na testa. Então foi assim, chegou ao pé desta mãe, eu, a que vos escreve, e convidou-me para ir ao cinema com ele. Eu até pensei que tinha ouvido mal e olhei à volta para ver se era comigo, ou se estava a combinar ir ao cinema com o irmão ver desenhos animados. Ele perdeu um bocadinho a paciência comigo e tratou-me como se eu estivesse ligeiramente demente, mas como foi só ligeiramente, deixei-me estar, a verdade é que desde que ninguém fale comigo muito devagarinho, a soletrar as sílabas, já estou por tudo, não estou, mas naquele nano bocado da minha vida estava cansada e sem vontade de usar a voz de mãe, então ele repetiu e eu perguntei-lhe se não tinha com quem ir ao cinema e vai ele e diz-me que sim que tem, mas que é comigo que gosta de ir ao cinema.

 

Bebi e não dei por isso. Droguei-me e não dei por isso. Tomei calmantes e não dei por isso. Sou a mãe dele e não dei por isso.

 

Atentem: esta mãe vai ao cinema com o seu quase nada adolescente de 18 anos, porque é a pessoa com quem ele gosta de ir ao cinema. Nem sei o que vestir.

 

 

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03
Abr19

17 - A mãe perfeita(mente desesperada)


Mac

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Parece-me que o meu adolescente já só tem 52,5% de adolescência. No outro dia disse-me assim "ó mãe, que tal irmos os dois comprar umas roupas para mim?". Eu por acaso até olhei à volta para não cair na tristeza de achar que os dois era a contar comigo e afinal não ser. Mas era, só estávamos nós. "E o que é que eu lá vou fazer?" perguntei eu. É verdade caí neste desalento, porque já não acredito na minha utilidade como personal shopper do meu rico filho. E vai ele e responde-me "Dar uma opinião". Tive uma tontura, ele não disse pagar, ele disse dar uma opinião.

 

Pára tudo.

 

O meu filho além de querer que eu o acompanhe numa sessão de compras, não é por nada, mas por acaso a área em que sou realmente excelente, não é para me gabar, mas eu a comprar sou supersónica. No outro dia até disse ao meu marido, assim em conversa ligeira sobre futilidades da vida "ah, acho que preciso de roupa para esta Primavera" e ele riu-se imenso, mas assim imenso mesmo. Eu sei que espalho alegria na vida das pessoas, mas a este nível, até eu fico espantada.

 

Não interessa, o que interessa é que o meu adolescente além de me querer na sua sessão de compras, não me quer calada, quer que eu opine. Por acaso também sou muito boa a opinar.

 

Qualquer dia já nem me pede para falar mais baixo. E rir menos. E falar menos com as funcionárias das lojas. E não contar a minha vida a toda a gente. Se calhar até deixa de revirar os olhos. E eu vou morrer de saudades disto tudo.

 

 

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28
Dez18

13 - A mãe perfeita(mente desesperada)


Mac

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Aqui há tempos o meu quase não adolescente falou-me numa amiga. O meu filho chama - como eu chamei na idade dele também - de amigo a toda a gente, mesmo que só tenha falado com a pessoa uma única vez aí durante 5 segundos, basta isso para a pessoa ser logo chamada de amiga. Então falou-me de uma amiga e eu perguntei-lhe quem era a amiga a que se referia, ele insistiu que eu a conhecia e eu insisti que não. E vai ele e diz-me que eu não sei quem é a amiga porque sou uma mãe ausente, se fosse uma mãe atenta sabia perfeitamente quem é a amiga. 

 

Ontem falou-me noutra amiga, que eu também não conheço, mas ele insiste que sim. Então perguntei-lhe  "Mas onde é que a conheceste?".

 

Vai ele e diz-me que sou uma mãe controladora e mais não sei quê.

 

[já nem me atrevi a perguntar em que escola anda, quem são os pais e onde mora. credo]

 

 

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17
Dez18

47 - Quem tem um adolescente, tem tudo


Mac

(a passar no rádio do carro: Can't stop loving you)

 

Vai o meu filho quase a sair do estado adolescente (eu rezo muito) e perguntou, Ó mãe de quem é esta música? E esta mãe, que já saiu há muito do estado adolescente, respondeu,  É do Phil Collins. E vai o meu filho quase a sair do estado adolescente (eu rezo que me farto) e diz assim, tal e qual, sem tirar nem pôr: "Ah aquele velhinho que apareceu com um olho negro?".

 

Parou. Qualquer dia chama-me velhinho amoroso ao Sting, ou a mim, velhinha amorosa. O Phil Collins é para o meu filho quase a sair do estado adolescente (muitas rezas tenho eu feito), "aquele velhinho".

 

[Diga-se em abono da verdade que o Phil Collins nunca me arrancou suspiros, nunca foi aquele género do Sting, por exemplo, ou quem diz o Sting, diz o Bono, ou assim outro parecido, olha como aquele giro, o coiso, sim, esse. Pois. Por acaso sempre o vi sentado ao fim do dia na poltrona enquanto passava a Roda da Sorte, a ler o jornal e a dormitar, enquanto a sodona Collins não o chamava para a mesa, mas daí até ouvir aquele velhinho, custou-me. Olha filho, um dia perceberás, dos teu dirás, mas não ouvirás]

 

Onde é que esta gente tem a cabeça?  

 

Estou velha. Mas não sou amorosa.

 

 

  • Instagram @maria.antonia.velez

 

05
Dez18

12 - A mãe perfeita(mente desesperada)


Mac

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O meu filho que já não acredita no Pai Natal vai para uma década, pediu para lhe darmos dinheiro em vez de presentes. Quando é que me tornei uma mãe do envelope, da transferência bancária e do não se vê nada, toma lá um beijinho? Não quero Natais assim, quero Natais de surpresas, de rasgar papéis, de guardar os laços que se aproveitam. Não quero ir ao multibanco e já está. Quero trabalheiras, reclamar da barafunda das compras, das filas intermináveis e da crise para estacionar o carro, encher-me de calor, constatar que mais uma vez devia ter vestido só uma t-shirt e uns calções, que não fui criada para isto, tenho mais o que fazer, mas não dispenso uma confusão, se calhar isso também é o sal da vida, ou a pimenta. Não quero sentar-me à frente do computador e já está, lá foi ela da Lapónia para o sapatinho, que é como quem diz nesta realidade: transferência conta a conta. Quero continuar a planear tudo e tudo, mas a deixar qualquer coisa para dia 24 e depois reclamar mais um bocado, voltar a encher-me de calor, puxar as golas altas e arrastar os casacos e os sacos. 

 

Dinheiro? O meu filho cresceu e já não quer brinquedos, jogos de consola, legos e o presente antecipado, aquele do dia em que a mãe ia falar como Pai Natal e o Pai Natal mandava sempre um agrado porque ele é um bom menino e tem boas notas e tudo. E eu já comprei o presente adiantado, o tal que o Pai Natal manda quando vou falar com ele e levo as listas dos meus amores, é que apesar de ele já não acreditar no Pai Natal, esta mãe de tanto fazer a pantomina, voltou a acreditar.

 

Os filhos levam-nos de novo para a infância e quando achamos que aquilo é para durar para sempre, um dia pregam-nos uma rasteira e é o que se sabe, o Pai Natal afinal não existe. 

 

  

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22
Nov18

46 - Quem tem um adolescente, tem tudo


Mac

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Durante o Inverno o meu adolescente preferido usou sempre daqueles casacos encerados. Comprei-lhe o primeiro aos três anos e sempre que deixava de servir, comprava um outro maior. Acho-os giros q. b. mas acima de tudo são mega práticos, protegem da chuva sem abafar, têm um forro amovível que é super quente para os dias muito frios e ainda um capuz também amovível, portanto é aquele tipo de casaco que protege bem os miúdos e dá para os dias de chuva ainda pouco frios, para os dias muito frios e para os dias de chuva frios.

 

Quando entrou na adolescência, renegou o casaco para o baú dos betos. Este casaco é de beto, só os betos é que usam isto, isto é foleiro, é para a vossa idade, vocês são um bocado betos, eu não quero andar com isto, isto é para os betos levarem para o campo, eu não sou beto,  este casaco é nojento, eu não vou para o campo, e isso.

 

Ainda lhe comprei um casaco para os 15 anos, que ele não usou, mas eu achei que sim,  que aquilo é tão bom, que valia a pena tentar. O casaco ficou no armário e não voltei a comprar-lhe daqueles casacos.

 

Aqui há dias saímos todos e o Pedro vestiu um dos casacos que ficou do irmão, o que lhe serve agora aos 7 anos. E ontem o meu adolescente querido e adorado, nada do contra, disse-me assim: "ó mãaaae preciso de um casaco destes, mas para adulto". Estes casacos não têm versão infantil e versão adulto, são iguais só diferem no tamanho. Perdi-me. Então aquilo não é de beto? Daqueles que só os betos é que usam, foleiros, que são para a nossa idade, e para os betos levarem para o campo e isso? Perdi-me algures neste processo.

 

O meu filho quer um casaco que sempre detestou, ou pelo menos começou a detestar no início da adolescência. Não sei se me vanglorie ou continue em estado de espanto.

 

 

 

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13
Nov18

45 - Quem tem um adolescente, tem tudo


Mac

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No carro, esta que vos escreve ao volante e o adolescente ao lado, e vai o meu adolescente preferido e diz assim "um destes dias tenho de mostrar como se conduz". Esta ingénua que vos escreve vai e diz "ó filho, eu conduzo há 35 anos e nunca tive um acidente", e vai ele "isso não quer dizer nada, apenas sorte", "sorte durante 35 anos, todos os dias, estamos a falar de cerca de 12000 dias de condução", "sorte, porque a conduzir assim tem tudo para provocar um acidente". Pronto, fiquei um tudo nada mais descansada, não tenho acidentes, provoco-os.

 

Estou há mais de uma hora acometida de risos mais ou menos frequentes, mais ou menos imotivados. Nasci para isto.

 

 

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06
Set18

215 - Os filhos, a vida, o nirvana e eu


Mac

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Esta noite esta mãe que vos escreve leu até às 6, hora a que o adolescente entrou neste lar que o acolhe com tanto amor e carinho, porque era despedida das noitadas e lá o sítio onde eles vão, que até era onde nós também íamos, mas um bocadinho mais velhos do que ele, agora fecha no Outono (aleluia) e era o último dia e portanto havia que abusar do horário até o sol raiar. Dormi até às 8, hora a que o mais novo achou que era boa ideia tomar o pequeno-almoço, ligar a televisão, ir buscar os bonecos e a caderneta, ver o filme do não sei quantos, reclamar que a box foi abaixo e onde está o Ben 10 e os não sei quês (e são 6 canais infantis para a mãe enlouquecer devagarinho e aquela hora sei lá eu onde dá o quê, mas ele sabe). Ontem o adolescente teve cá amigos e eu ainda dormi até começarem os assaltos ao frigorífico. Ouço bem demais eu. Então resolvi que era melhor ler. Li até às 5 da manhã e às 7 tinha o mais novo com fome e a querer não sei o quê.  Sei que lhe liguei a televisão e ele afinal queria silêncio, ficou bastante aborrecido e disse-me que já não era um bebé. Dormi até às oito no sofá porque já não consegui lembrar-me da minha cama. Antes de ontem já não sei o que aconteceu cá em casa, mas eu li, depois o meu marido tirou-me o livro e os óculos algures durante a noite e dormi até às 6, hora a que o mais novo resolveu acampar na nossa cama e empurrar-me até onde é aceitável que um corpo adulto de 55 quilos (ipiurra para mim) fique em repouso sem cair.

 

 

 

[hoje instituí o horário de tempo de aulas, não me apetece ler tanto]

 

 

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