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a vida em azul cueca

24
Jun20

306 - A mãe perfeita(mente desesperada)


Mac

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o meu já quase nada adolescente pediu-me para lhe dar um jeito no cabelo, não quer ir ao barbeiro e segundo as suas palavras, até confia em mim . parei de pensar por um bocado e fixei-me naquela ideia: até confia em mim . fico mais descansada . acho que até orgulhosa . uma mãe de adolescente não pode ser muito exigente, caso contrário não sobrevive boa da cabeça aos anos das críticas, isso é uma seca e revirar de olhos . então peguei na tesoura de cabelos e comecei por cortar um bocadinho minúsculo, mostrei-lhe e perguntei se era aquilo e não mais . autorizou e eu aparei-lhe um centímetro ao cabelo . gostou . ainda estou inebriada . precisava de partilhar isto .

 

17
Jun20

51 - Quem tem um adolescente, tem tudo


Mac

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Resumo de uma ida às compras nesta era Covid com o meu quase nada adolescente, para lhe comprar t-shirts. Diz que cresceu durante o confinamento e que as t-shirts lhe estão todas pequenas. Não cresceu, mas pronto, aproveitei para um momento a dois. Já é raro fazermos coisas destas, geralmente faço-lhe uma transferência e ele vem de lá com coisas que, digamos assim, eu nunca compraria, mas parece-me que tem vindo a descobrir que tem em casa uma pessoa com um enorme potencial nesta área: eu. Até já houve uma vez que me requisitou porque precisava da minha opinião. Isto é uma conquista que nunca sonhei, até nem abuso das minhas opiniões para não estragar a coisa.

 

Não é preciso falar tão alto, a máscara não pôs as pessoas surdas.

Não é preciso rir às gargalhadas, as pessoas percebem pelos olhos quando lhes sorrimos.

Eu não visto isso.

Isso é pavoroso.

Isso é roupa de velho.

Isso é roupa de beto.

Esses calções são pavorosos.

Eu só vim comprar t-shirts, não quero mais nada.

Isto ainda demora?

Não preciso de mais nada.

Não quero.

Não quero.

Não gosto.

Não gosto.

Não gosto.

Basta estar a um metro das pessoas, não são cinco.

Qualquer dia borrifa o chão que se pisa e a cara das pessoas.

Não é preciso borrifar as mãos a cada coisa que mexe.

Que vergonha, isso foi de propósito.

Os outros não são surdos.

Não é preciso contar aos gritos a vida a toda a gente, aliás não é preciso contar a vida a toda a gente.

 

 

Se calhar podia borrifar línguas, não sei, foi uma ideia que me ocorreu agora.

Correu lindamente.

 

 

12
Abr20

50 - Quem tem um adolescente, tem tudo


Mac

 

32º dia de quarentena voluntária + distanciamento social - 3ª parte

 

 

vai filho adulto acabado de nascer e diz que isto tudo lhe está a custar imenso, e vai esta mãe de há muitos anos mãe em funções na vida e no coração, e diz, pois sim filho, eu sei, caramba já estamos aqui há um mês, mas é assim temos de ser fortes e vai passar depressa, olha para nós, fazemos montes de coisas, isso ajuda a manter a sanidade e até de uma certa forma a gostar disto tudo,  acima de tudo torna este tempo útil e a passar mais depressa e lailailai, rebeubeu, pardais ao ninho, focas no mar, leões na savana . e vai filho e diz, pois, não vos custa porque vocês não têm uma vida, muito menos uma vida lá fora à vossa espera, na vossa idade é natural, estão muito bem em casa, não precisam de mais nada . 

 

ele acha que nós estamos mortos e ainda não sabemos

 

21
Mar20

51 - Quem Tem um Adolescente Tem Tudo


Mac

 

10º dia de quarentena

 

O meu doce filho jovem adulto, quase nada adolescente - depende dos dias - sentenciou que não janta, nem almoça, nem faz qualquer refeição connosco porque como somos muito dados ao contacto social, mesmo de quarentena voluntária há 10 dias, se calhar já estamos infectados e ainda não sabemos. A seguir disse que os amigos todos jantam uns com os outros no Skype e que nas casas deles ninguém os obriga a estar à mesa.

Eu sei, filho, que os pais dos outros são mega modernos e são bestiais, muito melhores do que nós. Pensei, mas não disse, é uma frase que dá direito a uma discussão demasiado antiga para ainda achar que vale a pena tê-la. Expliquei-lhe que vem tarde, que se fosse o caso, já estávamos todos infectados. Também não entrei pela quantidade de gente com quem ele se dá, não estive para isso. Os anos que já levo desta adolescência ensinaram-me a poupar palavras. A poupar-me também. As carradas de anos que levo disto, para aí 3 séculos, também me ensinaram que os adolescentes não estão interessados em conversar, nem discutir pontos de vista com os pais, querem só dizer coisas e dar sentenças, mais nada, tudo quanto vá para além disto só serve para nos cansar os músculos da cara.

Então disse-lhe que estava bem, mas que então eu não poderia tratar da roupa dele, nem fazer-lhe a cama, nem confeccionar absolutamente nada para ele comer, tudo isso teria de ser feito pela pessoa não infecta desta casa.

 

Parece que afinal não faz mal eu estar (supostamente) infectada. 

 

Jantámos todos à mesa como fazem as famílias chatas com pais jarretas.

 

 

 

 

27
Nov19

252 - A dona de casa (e a mãe) perfeita(mente desesperada)


Mac

 

 

 

o meu adolescente, quase adulto, ou já adulto com uma mãe que ainda acha que ele é adolescente, a mesma mãe que o achava criança e ele já era adolescente, não interessa, o meu adolescente está numa fase asseada . há uma intermitência que ocorre durante a adolescência masculina . ou estão numa fase porquita ou numa fase asseada, sabendo que na fase porquita são do mais porco que há - não consigo descrever - se não do mais porco que há, aquilo que esta mãe consegue conceber que é porco . e na fase asseada são do mais limpo que há, a tocar o preocupante, acompanhados de consumos excessivos de gel de banho, after shave, pasta de dentes, champô e todos os produtos que contenham sabão ou álcool, ou ambos, e lhes arranque a derme e a epiderme . juro que até me parece que  baixa um tom de pele ao meu filho . já dei comigo a espreitar-lhe os olhos para confirmar que não está anémico . não está, está só lavado . dizia eu que está numa fase de uma higiene de fazer inveja a um cirurgião . estava o meu adolescente no banho, para variar,  e vai o meu outro filho, a criança, e no mais feliz que há, diz-me que está a chover na casa de banho do r/c, enquanto se dirigia para os guarda-chuvas . não estava a chover, mas estava a pingar do tecto para cima da sanita, mas já mais de lado . se fosse só um bocadinho mais ao lado, aí coisa de 4 dedos, caía mesmo dentro da sanita e não tinha de pôr ali um balde . mas não sou uma pessoa dada a sortes e curiosidades felizes, a mim calha-me o lado tenebroso das situações . depois ocorreu-me que ia passar a noite a mudar baldes, então disse ao adolescente que tinha de sair imediatamente do duche, mas ele não me ouviu, porque acompanha os duches com música aos gritos . ensaiei uns gritos também e ele disse que não me conseguia perceber, mas que já falávamos quando tirasse o champô da cabeça . fiquei ali uns vinte minutos a tentar perceber a cadência das gotas e se seria necessário dar cabo de uma noite de sono, ou se aquilo ia encher só um balde . em boa hora comprei bons baldes e foi então que me lembrei que coisas de canos e isso é coisa para homem, eu sei lá de canos . nem quero saber, nem tenho de saber, mas a vida apostou que viria a saber . liguei ao meu marido, e ele vai e diz-me que está em amesterdão . para que me disse aquilo? eu sei perfeitamente que está em amesterdão, e eu estou nos subúrbios de lisboa . nesta casa fala-se em alhos e respondem-me bugalhos . eu tudo, eu tudo . sou provavelmente, quase de certeza, com toda a certeza, a única pessoa neste país que ainda não decorou a casa para o natal, nem tratou da árvore de natal, mas vou ser a primeira a preparar o jantar da consoada . apetece-me . se calhar vai estar tudo podre e azedo, mas não interessa, a consoada é quando uma mulher quiser . palhaça .

 

 

• Instagram maria.antonia.velez

 

 

05
Nov19

28 - A mãe perfeita(mente desesperada)


Mac

 

 

 

vai esta mãe e, ai rico filho que não anda a comer nada, os estudos consomem-no, anda cansado, esgotado da cabeça, e vou fazer umas pizzas e pão de alho e uns croquetes, tudo coisas fáceis de comer sem levantar os olhos dos livros, e rico filho tem de se alimentar, se estuda noite fora, também tem de comer noite fora . vai o rico filho, e não mãe e não quero, não como, não me apetece . e esta mãe, ai que ligo ao médico e peço um choque de vitaminas, proteínas, aminoácidos e coiso, mas entretanto vou fazer as pizzas e os croquetes, o pão de alho e scones, bolo de iogurte e um sumo de laranja, deixo umas maçãs lavadas e um arroz doce a arrefecer, uma salada de frutas também . mãe, não, não vou comer isso tudo, se tiver fome, abro um pacote de batatas ou faço umas pipocas . ai que isso são só porcarias e vais comer coisas com substância e vais e vais e vais . ai vais, não me chame eu mãe . e fiz e ele não comeu . amanhã faço-lhe um bife com batatas fritas, arroz e ovo estrelado . vamos ver se não come .  raça do miúdo, não sei a quem sai tão teimoso . 

 

 

 • Instagram maria.antonia.velez

 

 

17
Out19

27 - A mãe perfeita(mente desesperada)


Mac

 

 

 

no dia em que falar e me ouvirem, e chamar e vierem, e não tiver roupa suja espalhada pela casa, meias entaladas nas almofadas do sofá e abandonadas entre os lençóis da cama, sapatos esquecidos na entrada, as chaves no corredor, pacotes vazios na sala, pratos nas estantes, copos com restos de leite na mesa de estudo, e disser bom dia e ouvir bom dia de volta, e deixarem de me revirar os olhos, soprar a franja e fazer expressões de enfado, e balbuciarem-me coisas imperceptíveis como resposta a ralhetes e a comunicados, e a carinho também, ou muito perceptíveis: que interesse é que isso tem, ou pode ser, ou não, uuuuh, pfffffff, e não me pedirem para ir a todo lado e esticar as horas de entrada e não me atenderem o telemóvel, nesse dia vou estranhar . aos 20 isto acontece, não é? vou estranhar . e se calhar morro de saudades também. 

 

[há registo de mães de adultos com saudades da adolescência deles? a perguntar para uma amiga]

 

 

• Instagram @maria.antonia.velez

 

 

30
Ago19

26 - A mãe perfeita(mente desesperada)


Mac

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Sou daquelas mães que prevêem coisas, tenho esse dom. Também faço filmes em cenários apocalípticos, em que o meu filho não é a vítima, é uma espécie de herói, e a mãe é um ser que sub-repticiamente o salva de todos os perigos e não dorme para o alertar e isso, assim uma espécie de assistente do herói. É muito cansativo ser esta mãe. Além de estafas atrás de estafas, levo com carradas de nervos. Portanto previ que durante os 9 dias de MEO Sudoeste não iria ter grandes notícias do meu adolescente e preparei a minha cabeça para isso. Também passei à acção, diga-se, porque não consigo ficar só na preparação psicológica das coisas e arranjei uma grande aliada entre as amigas dele, daquelas que me dá sossego porque é uma espécie de eu, mas com 18 anos e amiga do meu rebento, ainda com a vantagem de estar nos sítios com ele, ter sempre o telefone ligado e com rede, e ser uma miúda espectacular, é verdade, consegui estar lá não estando. Depois, ao fim de 9 dias ele chegou sem ter comido nada de jeito, dormido ainda menos, bronzeado como tudo e a mãe dele procurou sinais dos medos que alimentou com carinho todas as noites em que ele esteve fora, também apostou que ele nunca usou os protectores factor 50++ que lhe meteu na mochila, não usou porque os frascos voltaram cheios, como também vieram cheias de terra a mochila e o saco, fiquei a saber que tudo quanto levam para lá, volta de lá num estado de porqueira imensa. Lama e pó de terra, ou terra, ou lá o que é aquilo. Mas veio inteiro, não muito mais magro, mas cheio de carência de vitaminas, aposto que nunca mais comeu fruta, nem sopa. Voltou assim e dormiu um dia seguido numa cama lavada a cheirar bem,  quando acordou, tomou duche e comunicou que ia trabalhar o resto de Agosto. E foi trabalhar todos os dias como monitor num daqueles centros de férias para crianças, porque precisa de dinheiro para não sei o quê. Acaba hoje o trabalho e na próxima semana começa a faculdade. 

 

Se calhar já me permitia deixar de fazer filmes de terror, deixar de ser tão polícia de sinais de perigo e descansar um bocado, não muito, mas um pouco, até porque tenho de recuperar energias, daqui a nada entra-me o outro na adolescência.

 

 

  • Instagram @maria.antonia.velez

13
Mai19

19 - A mãe perfeita(mente desesperada)


Mac

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o meu adolescente querido vai ao meo sudoeste . 9 dias . diz que cinco são para acampar e mais não sei quê e os outros quatro para concertos . ou ao contrário, não percebi, porque perdi a noção espaçotemporal por uns minutos e perdi-me na conversa . espero muito sinceramente que nos dias dos concertos também acampem . não interessa, tudo somado são nove dias de esbórnia longe da mãe querida . esta aqui .  a mãe dele, esta que vos escreve, está em pré desmaio . não sei se não será mais uma síncope, mas está bem . diz que é em agosto . para me aliviar do pré desmaio, quase síncope, fiz uma lista daquilo que me parece que ele vai precisar . mostrei-lhe a lista . disse-me assim, literalmente, sem tirar nem pôr "eu não sou um totó" . a mãe querida dele começou a tomar colagénio . depois conto-vos tudo . se fiquei mais nova, mais velha ou desmaiada .

 

 

  • Instagram @maria.antonia.velez

 

 

02
Mai19

50 - Quem tem um adolescente, tem tudo


Mac

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O problema com os adolescentes de 18 anos é que já levam com quatro anos de adolescência. São quatro anos de meias metidas na cama, entre as almofadas do sofá e por aí, são quatro anos de roupa suja espalhada, de pacotes vazios esquecidos algures pela casa, ténis à porta e recusas em tomar banho. São quatro anos de falta de banho ou excesso, depende dos humores e das fases da vida e existenciais em que se encontram, quatro anos de reviradelas de olhos, sopradelas para a franja e grunhidos. Quatro anos de teimosias de fazer chorar um santo, de atirar uma mãe para uma ala de psiquiatria com surtos diversos, de nervos de aço, abraços de ferro e mimo também. É muito treino, muitas certezas e uma vontade férrea de infringir todas as normas e hábitos da família e sociedade em geral.

 

O meu adolescente resolveu usar risca a meio no cabelo, ora para mim a risca a meio nos homens é o equivalente a uma mulher que não se depila. Não se usa, não se faz, não gosto. Andamos nisto há 15 dias. Há 15 dias que faço campanha para o regresso da risca ao lado. Ontem tivemos o aniversário do pai desta casa e eu tirei fotografias. Muitas fotografias. Imensos grandes planos da risca a meio. A risca a meio em grupo, a risca a meio isolada, a risca a meio só com a cabeça, a risca a meio com a cabeça e o corpo, a risca a meio de lado, de frente e de costas.

 

Hoje o meu adolescente fez risca ao lado. A mãe dele não lhe disse nada. Nada. Silêncio total em relação ao assunto capilar. Calada como só uma mãe sabe ficar, quando a causa é superior. 

 

O problema dos adolescentes com 18 anos é que as mães dos adolescentes já levam com quatro anos de adolescente.

 

 

• Instagram @maria.antonia.velez

 

 

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