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a vida em azul cueca

22
Mai20

295 - A dona-de-casa perfeita(mente desesperada)


Mac

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esqueçam o história da distância de segurança, é puro lirismo utópico . fui ali ao supermercado para trazer as faltas dos produtos que não me trouxeram na encomenda online . não ia lá há 72 dias, desde que isto tudo começou, e só fui porque não me trouxeram os produtos que a rapaziada aqui de casa só come se forem aqueles dali, como os iogurtes líquidos que têm de ser aqueles e só aqueles, os queijos frescos e outras manias . a coisa até começou mais ou menos bem, mas depois melou na secção da fruta . as pessoas estão-se perfeitamente nas tintas para manter a distância social, quando querem aquela cebola e o facto de estar ali outra pessoa a escolher a cebola, não as impede de se colarem e também tirarem a cebola, porque está-se mesmo a ver que a cebola vai faltar e a pessoa não pode esperar, não pode ir buscar outra coisa, não, a pessoa tem que se atirar para o pescoço da que lá está, para arrebanhar a cebola e com isto respiramos todos para cima uns dos outros, que mesmo com máscara não quer dizer que já não há problema, há, e eu por exemplo, não quero o bafo dos outros em cima de mim . claro que nas filas para as caixas já estava tudo outra vez muito bem comportado, a mexer nas revistas todas, a entreter as vistas e para isso a mexericar em tudo, mas com a tal distância social .

 

por mais controlo que haja à entrada e limitação do número de pessoas, é impossível controlar os comportamentos para além do uso de máscara . até podiam estar só dez pessoas, se essas dez não cumprem a distância entre si, de nada vale o controlo na entrada .

 

com esta amostra sou de certeza a pessoa que este ano não põe os pés na praia, ninguém me convence, para já, que a coisa vai correr bem . não  enquanto a par da máscara, não decretarem que os tasers são de uso obrigatório para afastar os outros e manter o tal distanciamento social tão necessário à não propagação do vírus . 

 

vim de lá tão enervada que até me dói a garganta . juro

 

 

20
Mai20

294 - A mãe perfeita(mente desesperada)


Mac

 

 

fui desconfinar os meus cabelos e foi o melhor que fiz nos últimos tempos . o mais velho queria ir comigo a lisboa porque assim aproveitava para ver uns amigos, mas eu queria ir, e fui, sozinha . mais do que a ida ao cabeleireiro, ficar vinte minutos sozinha na a5 surgiu-me como o programão dos últimos tempos . vinte minutos a ouvir a minha música e não dos miúdos, vinte minutos a cantar sem ouvir, ó mãaaaaaiiiiiiiiiiiiii, vinte minutos só meus, sem a miragem de um supermercado a abarrotar de gente, sem filas intermináveis, procura de sucedâneos e cinquenta pufes de álcool nas mãos . foram setenta dias sem estar só comigo e eu gosto muito da minha companhia . aprecio-me, sou silenciosa, não ponho música que me desagrade, não me perco de mim nas lojas, nunca me critico por falar alto demais, nem demasiado com os outros, não me aborreço por andar depressa demais ou devagar, sou realmente a minha melhor companhia . gosto muito dos meus filhos e do meu marido, mas a verdade é que desde que isto tudo começou nunca mais tive tempo para mim, setenta dias, foram setenta dias sem um bocadão só meu . nunca mais tive bocados sozinha, a não ser aquelas saídas para ir buscar coisas essenciais à sobrevivência desta gente, diga-se que foram sempre saídas carregadas de nervos, ora pela novidade e a falta de hábito naquela coisa das desinfecções, ora já habituada mas a saber muito bem o que me esperava . tudo junto nunca resultou em saídas pacíficas, muito menos que me dessem algum gozo . gosto muito deles, já disse? mas gosto também porque cada um tem o seu tempo de qualidade, não estamos vinte e quatro sobre vinte e quatro horas juntos, cada um tem uma vida e o que trazemos para casa dessa vida é o que faz a nossa família . com o confinamento perdemos uma grande parte da nossa identidade e eu precisava de a recuperar nem que fosse só por um bocado, apesar de saber que os miúdos vão continuar em homeschooling e o meu marido em teletrabalho . e recuperei . hoje era dia de ir tratar de mim e até o percurso de 20 minutos na a5 me estava a apetecer .

juro que imaginei escrever qualquer coisa sobre o horror que é estar 3 horas com a máscara posta enquanto levamos com tinta, água e calor na cabeça, até imaginei que teria de ir à rua com as pratas na cabeça para tirar a máscara por bocados e respirar, imaginei até que era pessoa para quando o secador se aproximasse de mim, pedir para sair com os cabelos molhados . não aconteceu . preferia a vida sem máscara, sem qualquer dúvida, mas com máscara não é assim tão insuportável, é temporária . faz-se .

e no fim o bónus do alívio de tirar a máscara e mais vinte minutos só comigo

 

19
Mai20

293 - A desconfinada perfeita(mente desesperada)


Mac

 

 

durante o almoço falámos outra vez sobre as férias, o meu marido está quase a optar por as desmarcar, mas como havia pimentos padrón, não me apeteceu desenvolver muito o tema . estou mesmo sem saber o que decidir e fiz o que faço sempre, deixo-o decidir, depois logo vejo se fico ou não chateada . 

sodona trouxe uns ramos de salsa e eu achei que ficavam bonitos numa jarra . não têm assim um cheiro como a hortelã, mas dão um ar giro à cozinha . há bocado antes de sair disse que amanhã me traz flores .

 

comecei a pintar a cómoda, a tinta é bastante brilhante, mas até gostei . vai trazer um certo brilho las vegas ao corredor onde está, se gostar muito até lhe ponho um flamingo de cada lado e um espelho dourado em cima . não ponho, porque sou uma mariquinhas pé de salsa .

precisei de ir novamente  à superfície do bricolage, mas nem saí do carro, a fila cá fora dava a volta à esquina do barracão . já deu para perceber que agora temos de planear muito bem tudo e não falhar nada numa lista . saudades do tempo em que confiava na minha memória e deixava a lista em casa, depois trazia só coisas fora da lista . isto veio acabar até com os pequenos prazeres da vida . nada é natural e nada pode ser de improviso .

 

 

andava meio coisa com os meus frascos de álcool gel e álcool puro, nada práticos para trazer comigo, então resolvi a coisa com dois frascos pequenos que cabem numa mala pequena, ou no bolso, vá, se o bolso for grande . 

 

balanço: eu sei lá

 

 

18
Mai20

18 - Here comes the sun, lailailai


Mac

 

a desconfinar mais um bocadinho - 2ª parte

 

 

vesti um vestido, mas desta vez com uns ténis e fui ali a uma grande superfície do bricolage e jardim para tratar de cenas diversas da vida lá fora e de uma cómoda que vai passar a branco giz . entrei sem filas, circulei sem me cruzar demasiado perto das pessoas e fui dar com prateleiras vazias de tudo . como se já não bastasse isso, estava tudo assim para o desarrumado, latas deitadas, latas com a tampa para baixo . aquela desarrumação arreliou-me um bocado, lá por estarmos em estado de calamidade, não quer dizer que as prateleiras possam estar uma calamidade . à vontade não é à vontadinha . adiante . não havia exactamente a tinta que queria, então trouxe a versão com brilho do branco giz que gosto, depois dou-lhe a camada final com um resto que ainda tenho . não havia o cloro 5 elementos, trouxe o de 4 elementos, tenho a certeza que ninguém vai sentir a falta do 5º elemento . não havia armadilhas para as formigas da marca coisa, havia de outra, hão-de funcionar . 

para sair foi mais complicado, uma fila interminável para as caixas, mas ali tudo a manter as distâncias de segurança, foi civilizado . noto que em filas tenho o hábito de bufar, como se isso fizesse a fila desaparecer da minha frente . com máscara é como se estivesse numa estufa, aquele ar quente produzido pela própria sufoca-me de calor . imaginei isto no verão e  fiz logo ali um filme, mas em bom, com desmaios e isso . depois passei para outros pensamentos como apresentar à minha própria pessoa uma razão válida para continuar a arranjar o cabelo, se já o trago sempre amarrado . não me lembro de ter arranjado uma razão, até porque logo a seguir reparei  que andava uma pessoa sem máscara na zona do mobiliário de jardim e os funcionários que estavam perto não lhe disseram nada . espero não precisar de aguarrás tão cedo na minha vida .

 

está-me a custar imenso a adaptar a esta nova realidade . não posso dizer nova normalidade, não  quero achar que isto é normal, nem sequer a quero encarar como definitiva . a normalidade será sempre o que tínhamos, isto agora de normal não tem nada . novo normal não é, não quero . não estou a conseguir encarar a vida lá fora como a vejo nas fotos espalhadas pelas redes sociais . parece que me falta um botão para desligar e ligar o modo "vida normal", como se o vírus tivesse desaparecido e como se já não houvesse perigo de contágio . ainda não consigo pôr em fotografias o que para já não é real . lá chegarei . sol já tenho, o resto há-de vir também .

 

lição do dia: devo ser uma pessoa que suspira imenso, mas vai deixar de suspirar . também sou dada a bufar e vou deixar de bufar . com máscara é só um inferno . a partir de agora serei a pessoa que respira devagarinho, normalinho e com educação, não me suporto dentro da máscara, sou muito quente . tenho de treinar até ao dia do cabeleireiro . serão 3 horas ali dentro da máscara comigo mesma .

 

 

18
Mai20

292 - A dona-de-casa perfeita(mente desesperada)


Mac

 

69º dia disto, a desconfinar um bocadinho aqui, outro ali

(vou deixar de contar os dias)

 

sodona regressou ao serviço, tinha um caminho de flores perfumadas à sua espera e sorrisos mil . o caminho de flores é imaginário, era mais um corredor de pó para limpar, mas o que interessa é a intenção . já os sorrisos foram reais . santa, santa, santa .

 

por causa disto do covid tenho conta em tudo quanto é loja online . não estou muito longe de afirmar com segurança que sou a pessoa mais badalada no online deste país . também activei o meu spam ao máximo, porque lá por precisar de comprar coisas, não quer dizer que precise de ser aliciada a comprar mais, sei-o fazer perfeitamente, sem ajudas e ideias . a verdade é que não gosto de e-mails . são uma seca .

 

já sonhei por duas vezes que estava no meio de uma multidão sem máscara e isso pôs-me bastante aflita . na primeira vez não me lembro onde estava, na segunda estava numa repartição de finanças ou num cartório, não percebi bem , sei que toda a gente tinha prioridade e eu não, mas logo a seguir já estava num cinema que era uma rampa sem saída de emergência cheia de gente sem máscaras . continuo muito boa a arranjar-me angustias e medos . nisto ninguém me bate . ou então sou só uma versão do david lynch à escala do meu bairro .

 

no sábado levámos o pedro à praia, só para ele correr e apanhar ar bom . já não me lembrava da última vez que ele saiu, acho que foi aí há um mês quando demos uma volta de carro sem sair dele . estive o tempo todo incomodadíssima com tudo,  borrifei as mãos da criança com álcool umas 500 vezes, não me sentei na areia (também ajudou ter visto uma ratazana de papo para o ar com ar de quem tinha morrido) e controlei o tempo todo a distância para as outras pessoas . saí de lá stressadíssima . tenho aprendido a estragar tudo quanto era um enorme prazer .

 

chegou uma encomenda do continente e quando o entregador começou a pousar os meus sacos no passeio tive vontade de lhe bater . não lhe bati mas chamei-lhe porco de uma forma gentil, mostrando-lhe pela lógica que o que estava a fazer era um perfeito nojo e nem era preciso estarmos na era covid, na antes do covid já era uma coisa porca . parece-me que ele me achou uma pessoa algo perturbada . se calhar não ajudou desatar a borrifar com álcool os sacos com o meu spray das plantas, quero lá saber, sou bem capaz de estar .

 

já disse que sodona regressou? é a felicidade em forma de tempo . já fiz duas fichas com o pedro, ele já assistiu a uma aula e fiz ginástica, tudo a esta hora do dia . até estou enervada, não sei bem o que fazer a tanto tempo livre, se calhar vou apanhar sol sem pensar nos milhares de tarefas que teria para fazer .  talvez até arranje mais uma fobia, ou um medo, ou um stress . santa .

 

projecto da semana: vou desconfinar os meus cabelos e deixarei de ser loira para todo o sempre, quer dizer, até mudar de ideias

 

 

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