26 - A mãe perfeita(mente desesperada)
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Sou daquelas mães que prevêem coisas, tenho esse dom. Também faço filmes em cenários apocalípticos, em que o meu filho não é a vítima, é uma espécie de herói, e a mãe é um ser que sub-repticiamente o salva de todos os perigos e não dorme para o alertar e isso, assim uma espécie de assistente do herói. É muito cansativo ser esta mãe. Além de estafas atrás de estafas, levo com carradas de nervos. Portanto previ que durante os 9 dias de MEO Sudoeste não iria ter grandes notícias do meu adolescente e preparei a minha cabeça para isso. Também passei à acção, diga-se, porque não consigo ficar só na preparação psicológica das coisas e arranjei uma grande aliada entre as amigas dele, daquelas que me dá sossego porque é uma espécie de eu, mas com 18 anos e amiga do meu rebento, ainda com a vantagem de estar nos sítios com ele, ter sempre o telefone ligado e com rede, e ser uma miúda espectacular, é verdade, consegui estar lá não estando. Depois, ao fim de 9 dias ele chegou sem ter comido nada de jeito, dormido ainda menos, bronzeado como tudo e a mãe dele procurou sinais dos medos que alimentou com carinho todas as noites em que ele esteve fora, também apostou que ele nunca usou os protectores factor 50++ que lhe meteu na mochila, não usou porque os frascos voltaram cheios, como também vieram cheias de terra a mochila e o saco, fiquei a saber que tudo quanto levam para lá, volta de lá num estado de porqueira imensa. Lama e pó de terra, ou terra, ou lá o que é aquilo. Mas veio inteiro, não muito mais magro, mas cheio de carência de vitaminas, aposto que nunca mais comeu fruta, nem sopa. Voltou assim e dormiu um dia seguido numa cama lavada a cheirar bem, quando acordou, tomou duche e comunicou que ia trabalhar o resto de Agosto. E foi trabalhar todos os dias como monitor num daqueles centros de férias para crianças, porque precisa de dinheiro para não sei o quê. Acaba hoje o trabalho e na próxima semana começa a faculdade.
Se calhar já me permitia deixar de fazer filmes de terror, deixar de ser tão polícia de sinais de perigo e descansar um bocado, não muito, mas um pouco, até porque tenho de recuperar energias, daqui a nada entra-me o outro na adolescência.
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