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a vida em azul cueca

28
Jun17

103 - Já fui feliz aqui


Mac

 

 

 

 

 

 

 

 

 

há em junho o início do verão, o meio do ano e a maior perda da minha vida . mas vou lembrar-me sempre dos junhos antes daquele junho, naquela casa da praia com as madeiras a cheirar a mar . as madeiras das casas de praia cheiram assim . aquelas janelas enormes de portadas brancas, o mar ao fundo da rua e o cheiro dos pinheiros . a fila de barracas brancas no areal, as mesmas famílias todos os anos, a mesma barraca . o banheiro que era pescador no inverno, o vítor dos bolos com aquela caixa branca com tabuleiros e filas de bolos frescos, o do "olá fresquinho, é fruta ou chocolate" e que em muito pequena não sabia o que era frutóchocolate e comia sempre o gelado de ananás . as tardes na esplanada depois da sesta, com as avós e tias vestidas de branco e nós a enfiar as sandálias na areia com pó preto do pinhal, "antes de entrares em casa, vais lavar os pés com a mangueira" e era só mesmo isso que queríamos, isso e estrear os vestidos todos que tinham sido feitos para aqueles meses das férias grandes .  

 

agora tenho o junho com os meus filhos, as idas à praia, as passagens na geladaria, os bocados na esplanada, à espera das férias a quatro . mas é sempre um alívio quando junho acaba . por mais anos que passem .

 

 

 

 

 

 

 

14
Jun17

102 - Já fui feliz aqui [e serei sempre]


Mac

 

 

  

. por estes dias . 

sempre encarei o santini como geladaria, só, mas desde que há aquela esplanada cá em baixo, que passou a ser o meu lugar para o café da manhã . gosto daquele branco tão branco, do lado da sombra das manhãs . como gosto de passar no carrossel e das manhãs de praia seguidas de uma tarde com todos os insufláveis do mundo, dos almoços em sítios repetidos e trepetidos, os que têm o mar pela frente, a melhor sangria do mundo e este céu tão azul . ou almoços em sítios diferentes do costume . às vezes acho que se quiser posso estar um ano sem repetir restaurantes e sem sair de cascais . 

. cascais está cada vez mais bonita, mais organizada, mais limpa e renovada . há um enorme cuidado em manter os canteiros cheios de flores, as ruas transitáveis, o ar respirável e as praias limpas, de fazer esplanadas simpáticas, restaurantes giros e apelativos e tornar a vida aqui muito agradável . é muito bom viver aqui . aqui ninguém se chateia com os turistas, ninguém sente o seu espaço invadido, nem nada tomado.

. é fantástico viver num sítio assim .  

 

 

 

14
Mai17

101 - Já fui feliz aqui [e serei sempre]


Mac

 

 

 

 

 

 

Há sempre os dissonantes, por originalidade ou não, medo de fazer parte de uma multidão ou não, de uma onda, de uma fé, de um acreditar, renascer, ou tudo. Há sempre os dissonantes que de tanto querer ser contra, vão contra aquilo que não tem porque ir contra.

 

Não me envergonha por aí além que a “nossa música” me comova, que o Salvador me comova, que ser portuguesa ontem, especialmente ontem, e hoje e sempre, me comova.

 

Eu sou de um tempo em que antes de um Festival da Eurovisão, nós já sabíamos de cor a letra da canção de Portugal. Sou de um tempo em que se renovava a esperança a cada Festival, para nunca passarmos dos últimos lugares. Também é verdade que o Festival até era um ponto alto nas nossas vidas. Verdade também que não tínhamos muito com que nos distrair. Não foi assim há tanto tempo, acho eu. Ontem, passados muitos (poucos) anos de ter perdido a vontade de assistir às nossas perdas, quis ver. O Salvador. E ganhámos. Em português, na nossa língua, sem precisarmos de nos traduzir para nos fazermos entender. Não foi preciso.

 

Não me envergonho de fazer parte desta multidão. Nada mesmo. Tenho tanto orgulho.

 

#SalvadorSobral
#JáFuiFelizAqui

10
Mai17

100 - Já fui feliz aqui [e serei sempre]


Mac

 

 

 

 

 

Tardes de chuva e bolos: Bolo de limão a arrefecer para o lanche depois da escola destes miúdos.

 

[ficou-me da minha infância dos dias de chuva e desconforto, da humidade no ar, nas salas de aulas, nos cadernos e na vida, e depois a melhor coisa, chegar a casa, tirar os sapatos e ter um bolo à espera para o lanche]

 

[ainda vou testar uma decoração, se ficar gira, depois mostro, se ficar uma bodega, já se sabe, fecho-me em copas. era só o que faltava vir para aqui espalhar vergonhas]

18
Abr17

99 - Já fui feliz aqui [e serei sempre]


Mac

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

fim-de-semana grande com sabor a alentejo, páscoa e raízes . a primavera no alentejo é tão bonita . o alentejo, esse, é sempre bonito . verde na primavera, amarelo a perder de vista no verão e castanho no inverno . nós aproveitamos tudo . eu há muitos anos, desde que me lembro de mim . eles depois de mim . as rotinas com o meu pai, o almoço da chegada no afonso, ainda o afonso era só metade do que é hoje, o café de sábado no águias d'ouro naquele tempo em que estava longe de beber café, e as voltas na feira para comprar as cestas que sempre gostei, o torrão doce e os livros ali ao lado, a visita ao ferreiro que já não está lá e a tudo, porque eu não me canso de matar as imensas saudades que tenho sempre de tudo e de todos . e agora também as coisas novas que fazem parte da infância deles, as tardes junto à ribeira, o pedro a atirar pedrinhas, no verão todos a nadar, no outono só a olhar para aquele sítio tão bom . as noites a contar as histórias da avó que nasceu naquela casa, da bisavó que fez aquelas mantas para eles e olhar aquele céu imenso tão cheio de estrelas . o céu do alentejo tem mais estrelas do que os outros, acredita a infância dos meus filhos, como a minha acreditou . e eu a saber tão bem o que é aquela felicidade tão plena de quem vai precisar sempre do alentejo . tanto quanto eu . é ali o meu lugar feliz, já o disse . onde a felicidade é fácil .

23
Nov16

98 - JÁ FUI FELIZ AQUI [E SEREI SEMPRE]


Mac

 

 

 

  

 

Houve um tempo em que me fartei do peru do Natal, do bacalhau com batatas cozidas e couve portuguesa, e de todas as iguarias da ceia de Natal, quer dizer, todas menos os doces. Ai que já não se aguenta, todos os anos a mesma coisa e ninguém gosta e é um sacrifício e até tenho vontade de meter os dedos nas amígdalas. Esta última parte não é verdade, é só um desejo (mas para continuar a comer). Foram tempos em que quis pato com recheio de alheira, leitão, arroz de pato, bacalhau com natas, bacalhau com broa e outros substitutos. Já não quero. No passado Natal tive saudades da Roupa Velha de bacalhau, que se fazia para o almoço de dia 25 em casa da minha avó e como não tivemos bacalhau cozido no dia 24 - porque o resto da família acha que já não se aguenta, mas este ano eu vou mostrar-lhes que aguenta sim - e sem o bacalhau e acompanhantes, também não houve os seus restos para fazer a Roupa Velha, então fiz Roupa Velha com o que deveriam ser as sobras, mas que não eram. Nem eu imaginava as saudades que já tinha.

 

Este ano para o dia 24 vou querer o peru com recheio para trinchar, o bacalhau cozido com batatas e couve portuguesa e os doces todos, que esses nunca falhei. Tenho saudades daquela ceia de dia 24. Voltar àquele jantar é a forma que tenho de regressar ao tempo em que tinha aquele Natal, àquela casa e aos cheiros que me ficaram gravados. Só por um bocado de tempo, o suficiente. Àquele tempo.

 

[agora tenho de descobrir onde se compram os reis dos perus para fazer em casa, como se recheiam e cenas]

07
Nov16

97 - JÁ FUI FELIZ AQUI [E SEREI SEMPRE]


Mac

 

 

 

 

  

 

 

vinte e tal coisas que gosto nos fins-de-semana . o cheiro dos lençóis acabados de mudar . experimentar vários tons de verniz e perder tempo com isto . o spa caseiro das manhãs de domingo e usar todos os cremes que apanho a jeito . perfumar-me com tudo o que me apetece . e saber que estes tratamentos não resultam em grande coisa, para além de um consumo exagerado de cremes, máscaras e esfoliantes, não é que a pele fique mais macia, o cabelo mais hidratado e a cara mais esticada, não fica, mas fica este tempo que me sabe pela vida . os almoços fora, aqui e ali . e descobrir novos restaurantes para incluir nos lugares seguros para ir sempre . ler ao entardecer com as pernas levantadas . a "minha" mistura de legumes . os jantares para comemorar nada com amigos, ou com família, ou sem amigos e sem família . o tempo no jardim depois de chover e o cheiro que fica no ar e na terra . o nosso café a dois com os jornais que ficam sempre para ler depois . as "minhas" revistas . as manhãs em cascais para comprar pão, andar no carrossel e cortar o cabelo dos miúdos . e nos dias de chuva incessante, ficar em casa a vê-la cair . os lanches com chá e clichés . os filmes pela tarde fora . vinte ou cinquenta coisas que gosto nos fins-de-semana .

03
Out16

96 - JÁ FUI FELIZ AQUI [E SEREI SEMPRE]


Mac

  

  

 

 

 

  

 

 

 

comecei outubro no alentejo . vi aquele céu imenso . vi as cores dos campos já quase sem verde e o rio de outro azul . a luz já é outra,  o meio-dia ainda é quente, mas com luz de quatro da tarde, os fins de tarde já pedem cheiro a madeiras queimadas e mantas, as noites estão geladas e respira-se o frio da casa ao pequeno-almoço . os mergulhos no rio em dias estupidamente quentes, são substituídos por passeios, tardes de pinturas e lanches no sofá à frente do fogo, até se pôr o sol naquele céu tão rosado que se vê das janelas . é outro outono o do lá . e é o mais bonito de todos os outonos . 

22
Ago16

95 - JÁ FUI FELIZ AQUI


Mac

 

 

 

 

gosto de agosto . foi em agosto que fui mãe a primeira vez (1) . foi em agosto que estive muito grávida a segunda vez (2) . foi em agosto que ainda pequena soube o que é o vento suão (3) . é em agosto que vivo de chinelos e não quero outra coisa . é em agosto que à areia e mar se seguem os campos de trigo ceifado e o maior céu estrelado do mundo (4) . é em agosto que vou sempre de férias . gosto das noites de agosto e das estrelas no alentejo . gosto de agosto .

 

 

(1) e que o meu filho me culpa, porque só tem festa de anos em setembro. e que agradecerei eternamente às velhacas das minhas amigas, os convites para a praia que eu não podia fazer, porque estava a feliz proprietária de um recém-nascido e de um humor bastante peculiar.

 

(2) também agradeço ideias tão boas, como passeios de barco com esta pessoa grávida de sete meses. ser 'chaculada é mesmo o que apetece a uma mulher grávida.

 

(3) basicamente é o mesmo que abrir a porta do forno, após o ter pré-aquecido a 220º C durante 4 horas e não tirar dali a cara. é uma sensação do género "vou liofilizar-me em nano segundos".

 

(4) já não há mais chamadas, que isto cansa mais do que escrever um texto a eito.

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